Instituto de Estudos sobre o Modernismo

quinta-feira, 21 de julho de 2011

"O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu" - Paulo Borges


Introdução

            Publicamos aqui textos inéditos ou dispersos sobre Fernando Pessoa, muito recentes (de 2008 a 2010) e todos eles alterados, por vezes substancialmente, para este livro. Une-os a tentativa de pensar em Pessoa, e a partir de Pessoa, alguns dos temas que lhe são centrais e que ocupam também um lugar destacado no nosso pensamento e produção filosóficos: a experiência da vacuidade, enquanto transcensão de todas as referências, conceitos e sentidos, incluindo o de “Deus”; a ficção de si, do(s) eu(s) e do mundo, como uma i-lusão ou jogo criador, aqui patente na experiência heteronímica; a emergência da mesma vacuidade nisso que (não) há entre uma coisa e outra, isto e aquilo, esse entre-ser tão bem figurado pelo “King of Gaps” pessoano e que dá o nome à revista/projecto que dirigimos: Cultura ENTRE Culturas; a possibilidade de estados diferenciados, não conceptuais e não intencionais, de consciência, precisamente os que mais ensinam sobre os anteriores temas e cuja tentativa de expressão percorre toda a obra pessoana, conferindo-lhe a “inquietante estranheza” que a singulariza e tornando difícil compreendê-la sem os ter em conta; os sentidos múltiplos de Portugal e da Lusofonia, bem como do Quinto Império, enquanto consumação da sua proclamada vocação universalista num estado transmundano de consciência, na linha de Uma Visão Armilar do Mundo [1].
Além disto, o presente livro oferece estudos comparados entre Pessoa e outros autores – Antonio Machado, Jorge Luis Borges e Emil Cioran - cujas obras dialogam implicitamente com a sua em torno da questão fundamental que a atravessa e que é o eixo do presente volume: a relação entre mesmo e outro, uno e múltiplo e a experiência de um vazio impessoal como matriz de todas as possibilidades, desassossegadoramente aberta no próprio seio do sujeito e do eu convencional, que, ao perder o fundo e a forma da sua aparente definição, se multiplica ficcionalmente em ilimitadas modalidades possíveis, sem que nenhuma delas possa cristalizar-se e fixar-se como algo de real e distinto do abismo de onde procede. Daí o título do livro, por sugestão directa das metáforas teatrais que Pessoa aplicou à sua experiência heteronímica (“drama em gente” ou “em almas” [2]): O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu.
            Este livro prossegue uma relação próxima, e por isso crítica, com a experiência pessoana, que data da adolescência, embora o impacto de Mário de Sá-Carneiro tenha então excedido o de Pessoa. Os temas pessoanos conduziram-nos depois a Teixeira de Pascoaes, que consideramos indispensável ler e meditar em conjunto com o poeta da “Ode Marítima” para se compreender o mais fundo de um e outro e a exterioridade da sua aparente divergência [3].
            É gratificante lançar este livro ao jogo do mundo no momento oportuno em que a obra pessoana começa a ganhar maior visibilidade filosófica, nacional e internacional, após sobre ela ter sobretudo incidido o foco dos estudos literários. Com efeito, a leitura filosófica de um “poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas” [4], como se definiu, parece todavia mostrar haver nele mais densidade de pensamento filosófico - embora formulado por vias híbridas e heterodoxas em relação à tradição ocidental mais académica, como acontece com o mais singular pensamento português – do que ele próprio tendia a admitir. Na verdade, alimentamos a expectativa de que os presentes ensaios possam pelo menos sugerir o imenso diálogo implícito que a obra pessoana sustenta e promove com algumas das mais profundas questões que atravessam a filosofia e a cultura planetárias, ocidentais e orientais, bem como as muitas sugestões e pontos de partida que oferece para uma reflexão inovadora sobre questões fundamentais da mesma tradição filosófica . Esperamos que a constatação disto anime as abordagens filosófica e literária de Pessoa a darem-se interdisciplinarmente as mãos para que toda a sua riqueza de pensador e escritor possa revelar-se a uma outra luz, inaugurando uma nova fase dos estudos pessoanos.
            Se ousamos esperar que o presente livro possa contribuir para tal, minimamente que seja, acalentamos sobretudo a aspiração de que, através da complexidade da experiência pessoana – labiríntico e caleidoscópico entrelaçamento de luzes, trevas e sombras - , possamos nós encontrar o fio de Ariana simplificador e libertador da nossa própria complexidade.

Paulo Borges.“Introdução” a O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu,
Lisboa, Verbo, 2011.

Paulo Borges é filósofo, ensaísta e investigador pessoano. Entre várias actividades que vem desenvolvendo (destaque para a importante revista Cultura Entre Culturas), tem dedicado especial atenção ao espólio de Fernando Pessoa sobretudo a parte dos escritos relacionados com filosofia da religião, onde se encontram textos inéditos, futuramente publicados por ele.


[1] Cf. Paulo Borges, Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, Lisboa, Verbo, 2010.
[2] Cf. Fernando Pessoa, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1986, p.1024.
[3] Cf. Paulo Borges, O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
[4] “I was a poet animated by philosophy, not a philosopher with poetic faculties” - Fernando Pessoa, Obras, II, p.81.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

EU PESSOA, TU PESSOAS


 

PESSOA, O PRECURSOR
Teresa Rita Lopes

Mal sabíamos nós, os jovens contestatários que, nos anos sessenta, enfrentávamos a Pide, a polícia de Salazar, que tínhamos em Pessoa um precursor! Logo ele, que os amantes de poesia da minha geração liam com recolhimento, tentando ignorar o que dele se dizia, que era um reaccionário, favorável ao Estado Novo que, por isso, lhe tinha premiado Mensagem e lhe divulgava os versos nos livros-únicos de então.
Seguramente por isso nunca simpatizei com Mensagem. Nem hoje, que sei que o nosso poeta que, inicialmente, acolheu Salazar com esperança – de que salvasse do caos o seu tão amado Portugal – foi ficando desconfiado dessa personalidade que julgara íntegra e acabou por explodir em violentos escritos: poemas e textos vários de prosa (até em francês, para o demolir além-fronteiras). Quando eu e os meus parceiros de incursões na célebre Arca  descobrimos o chorrilho de impropérios com que o nosso Poeta fustigara o “seminarista da contabilidade”, o “aldeão letrado”, desabrochámos em pirotécnico júbilo! E mais ainda quando encontrámos os fragmentos de uma carta que foi escrevendo ao sabor da sua indignação, ao longo de vários dias, em que pedia ao Presidente da República que destituísse o seu Presidente do Conselho por ser, assim mesmo dito, “incompetente para o cargo que assumiu”.*
E pensar que, passados quase trinta anos (a projectada carta, que, provavelmente não chegou a acabar, data de 1935, ano da morte), os jovens da minha geração escreveram ao presidente da República, já outro, uma carta no mesmo sentido a pedir, pelas mesmas razões, a demissão do mesmo Salazar! É evidente que esse belo gesto serviu apenas para fornecer à Pide mais alguns autógrafos. Mas hoje, quando, tantas vezes, me zango com os Portugueses, gosto de rememorar esses belos gestos inúteis, mas idealistas, que levaram muitos de nós para o exílio ou para a prisão. Todos sabíamos o risco que corríamos e arriscávamos. Hoje as pessoas só arriscam na Bolsa.
Nessa carta que nos chegou aos bocados, escrita em folhas soltas e em diferentes momentos, Pessoa eleva a voz, no tom de um sermão desse Padre António Vieira que tanto admirava, para exclamar: “Chegámos a isto, Senhor Presidente: passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudades da desordem e da má administração. Não sabíamos que a ordem nas ruas, que as estradas, as pontes e as esquadras tinham de ser compradas por tão alto preço – o da venda a retalho da alma portuguesa.” Noutra folha – noutro fragmento – remata, em prosa, com uma afirmação que também fará em verso: “Realmente é um Estado Novo, porque este estado de coisas nunca antes se viu”.
Num longo poema, repetiu, de facto:

Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu:
Sim, isto é um estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se viu.

E mais adianta, acrescenta:

Com “directrizes” à arte
Reata-se a tradição,
E juntam-se Apolo e Marte
No Teatro Nacional
Que é onde era a Inquisição.

Este poema, datado de 29.7.1935, faz referência, com a palavra “directrizes” entre aspas, ao discurso que Salazar fizera, a quando da distribuição dos prémios com que Pessoa fora também contemplado com Mensagem, em 21.2.1935, em que, como denuncia na tal carta ao Presidente da República, “abre a sessão com um discurso em que enxovalha todos os escritores portugueses – muitos deles seus superiores intelectuais – com a fútil imposição de “directrizes” que ninguém lhe pediu nem pediria(…)”. Por isso, acrescenta , “com uma inabilidade de aldeão letrado, de um só golpe afastou de si o resto da inteligência portuguesa que ainda o olhava com uma benevolência, já um tanto impaciente, e uma tolerância, já vagamente desdenhosa”.
É evidente que Pessoa refere o seu próprio estado de espírito. Depois dessa histórica sessão, a que não assistiu (deve ter seguido pela rádio e ter lido o discurso no jornal), a sua rejeição de Salazar foi brutal e definitiva. Aliás, essa tal “tolerância, já vagamente desdenhosa” e “benevolência, já vagamente impaciente”, com que define a sua própria atitude frente ao Presidente do Conselho já tinha sido sismicamente abalada com a apresentação à Assembleia Nacional de um projecto de lei visando a interdição de todas as  associações secretas,  muito particularmente a Maçonaria, que Pessoa sempre prezou e defendeu, embora declarasse nunca a ela ter pertencido. Pessoa publicou em 4.2.1935,no Diário de Lisboa, um violento artigo contra essa proposta, que veio , contudo, a ser aprovada sob a forma de uma nova lei ( nº 2), em 5.4.1935.  Aconteceu, portanto, que a distribuição dos prémios aconteceu  dezassete dias depois do artigo de Pessoa, e funcionou como azeite no fogo. Pouco antes de morrer, Pessoa, em carta a Adolfo Casais Monteiro, recusa a colaboração que ele lhe pede para a Presença, declarando que não mais publicaria em Portugal porque “acabara de acontecer” algo que o impossibilitava de o fazer. Não sabemos o quê. Um discurso de Salazar ouvido pela rádio ou lido no jornal? Notícia chegada de que o seu nome era censurado nos jornais, como afirmou?
É verdade, Pessoa fora para a lista negra. Morreu com essa raiva na alma.
E com o desgosto de não ter podido perseverar numa luta que empreendera, como se depreende do fragmento de um artigo, posterior ao de 4.2.1935 mas nunca publicado, em que ameaça: “Amigos reaccionários: em guarda!” **
E eu que tanto sofri, durante tanto tempo, por imaginá-lo reaccionário!

*Pessoa Inédito: organização de Teresa Rita Lopes. Lisboa, 1993, Livros Horizonte, pp.362-379.
** Ibidem, p.333

Teresa Rita Lopes 
      

sábado, 16 de julho de 2011

"Poesia na rua" em Cacela Velha


Durante os dias 15 e 16 de Julho, as ruas de Cacela Velha enchem-se de poesia. A arte poética pode ser apreciada nas paredes de casas, nos estendais com poesia, em conversas com poetas, entre outras actividades.
Ontem, dia 15 de Julho, a investigdora, escritora e poetisa Teresa Rita Lopes deu uma palestra intitulada "Histórias sobre poemas". A temática girou em torno da obra poética de Teresa Rita Lopes e de Fernando Pessoa. O público pode ouvir as palavras da poetisa admirando também a bela paisagem de Cacela Velha, cercada pelo mar.
A cidade é um verdadeiro "santuário poético", a sua beleza inspira a escrita artística. Os nomes de algumas ruas são homenagens a grande escritores. Como é o caso da Rua Teresa Rita Lopes, de frente para mar, com uma bela poesia escrita na parede.
O Instituto de Estudos sobre o Modernismo esteve presente na "Festa da Poesia" nas pessoas não só de Teresa Rita Lopes mas de Cláudia Souza e Nuno Ribeiro que intervieram para satisfazer a pergunta do público (numeroso e interessado): "Como explicam os heterónimos pessoanos". "A mais jovem pessoana do mundo", Amanda,como a Professora e poetisa lhe chamou, que já tinha revelado o seu saber e os seus dotes de recitante nas nossas recentes Jornadas, deliciou o público com a sua declamação de poemas de Pessoa.

Aniversário de Armando Côrtes-Rodrigues (vídeo) - Notícias - RTP Açores

A investigadora, Anabela Almeida integrante do Instituto de Estudos sobre o Modernismo, deu uma entrevista sobre a importância da obra de Armando Côrtes-Rodrigues. Neste vídeo aparece também um depoimento do poeta Nuno Dempster que acabou de publicar K3 um poema sobre a guerra colonial.
Vale a pena conferir.

Aniversário de Cortes Rodrigues (vídeo) - Notícias - RTP Açores

«Tive em mim milhares de filosofias» - os escritos filosóficos de Fernando Pessoa (Nuno Ribeiro)

«A dimensão pluralista da escrita de Fernando Pessoa não se manifesta apenas na criação de uma multiplicidade de personalidades literárias, no desenvolvimento de uma pluralidade de géneros e no cultivo de uma multiplicidade de estilos. O desenvolvimento de um pensamento filosófico na obra de Fernando Pessoa é também expressão da dimensão pluralista da escrita pessoana. É precisamente isso que lemos no seguinte escrito filosófico deste autor:

Milhares de teorias, grotescas, extraordinárias, profundas, sobre o mundo, sobre o homem, sobre todos os problemas que pertencem à metafísica atravessaram o meu espírito. Tive em mim milhares de filosofias das quais – como se fossem reais – nem mesmo duas concordariam. [1]

No espólio de Pessoa encontra-se uma multiplicidade de fragmentos, esquemas e projectos destinados a futuras obras, cujo início se constata, mas que não chegaram a ser concluídas. Nenhum destes esquemas, projectos e fragmentos do espólio filosófico de Pessoa chegou a ser publicado no decurso da vida do autor. Não é sem razão que no poema Tabacaria de Álvaro de Campos se lê: «Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.» Estas palavras, que Pessoa atribui a Álvaro de Campos, caracterizam bem o estado em que se encontra o espólio filosófico de Pessoa: um conjunto diversificado composto por múltiplas filosofias que foram feitas e ainda continuam, em grande parte, mantidas em segredo, a despeito de no espólio existirem mais de mil documentos catalogados sob a designação de filosofia.»


[1] «Thousands of theories, grotesque, extraordinary, profound, on the world, on man, on all problems that pertain to metaphysics have passed through my mind. I have had in me thousands of philosophies not any two of which — as if they were real — agreed.»: AAVV, Pessoa Inédito (organização Teresa Rita Lopes), Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p. 402.


[in Nuno Ribeiro, "«Tive em mim milhares de Filosofias» - questões para a edição dos escritos filosóficos inéditos de Fernando Pessoa", Cultura ENTRE Culturas, nº3, p.192] 
Nuno Ribeiro é graduado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e também autor do livro Fernando Pessoa e Nietzsche: O pensamento da pluralidade. Publicou já inúmeros artigos sobre o espólio filosófico de Pessoa, tema central da sua pesquisa, com inéditos pessoanos. Actualmente, prepara a edição dos textos filosóficos de Fernando Pessoa, no âmbito da sua tese de doutoramento. É membro do Instituto de Estudos sobre o Modernismo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Lançamento de "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu. Estudos e ensaios pessoanos", de Paulo Borges, apresentado por Miguel Real - 19 de Julho, 18.30, FNAC do Chiado

"Neste livro pensam-se com e a partir de Fernando Pessoa alguns dos temas com ele comungados: a experiência da vida como teatro heteronímico; a ficcional (im)possibilidade do(s) eu(s) e do mundo como i-lusão ou jogo criador; o vislumbre do entre-ser, isso que (não) há entre uma coisa e outra, consoante a revista Cultura ENTRE Culturas; estados não conceptuais nem intencionais de consciência; os sentidos múltiplos de Portugal, Lusofonia e Quinto Império, na linha de Uma Visão Armilar do Mundo. Pessoa redescoberto pela filosofia, também em diálogo com António Machado, Jorge Luis Borges e Emil Cioran" - Paulo Borges

O livro será apresentado pelo ensaísta e romancista Miguel Real.

Pessoa em edição francesa

Acaba de ser lançado na renomada editora francesa La Différence, o livro ContesFables et autres fictions uma edição de Teresa Rita Lopes. Neste livro o leitor poderá ter acesso a contos inéditos de Fernando Pessoa, como é o caso do "Eremita da Serra Negra", entre outros. Esse trabalho é fruto da pesquisa no espólio da Professora Teresa Rita Lopes. Vale a pena conferir